Segunda-feira, Maio 04, 2009

Concentrado

Sou maior por dentro do que por fora.
E,
às vezes,
essa concentração de alma magoa.

Segunda-feira, Setembro 22, 2008

Três

Súplica

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.


Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.


Miguel Torga

Quinta-feira, Agosto 07, 2008

Era grande a curiosidade em conhecer o Bruxo. Em saber o que era exactamente um bruxo. O que fazia. Que formas assumia. Qual o seu cheiro.
Não era raro ouvir a avó comentar com a mãe que "era melhor ir ao Bruxo", assim mesmo, em palavras sussuradas, quase transparentes. Outras palavras usava o pai quando socava a velha mesa de madeira e, com o seu hálito embriagante, exigia que se comesse em silêncio. Palavras roxas, nauseabundas, que cresciam e se alimentavam de luz.
Numa noite corajosa decidiu-se a conhecê-Lo. Deixou as sandálias rotas no quarto e mediu cada passo no soalho ruidoso da casa até sentir nos pés o bafo da terra quente do quintal.
Andou devagar e sem tempo até encontrar uma porta entreaberta. Na divisão abatida, pequena, vazia, só um homem sentado numa esteira. Não, não era o bruxo. Era um velho, muito velho. Cansado. Sozinho.
Disse-lhe "Chegaste" e o menino não compreendeu. Com as mãos senis estendeu-lhe uma pequena caixa de madeira. Escura. Gasta. Velha. Pesada.
"O que é?" perguntou o menino.
"É uma caixa de guardar corações. E é aí que vais levar o meu".

Quarta-feira, Abril 16, 2008

Por entre os dedos escapam-se-me tempo e omnipresença
Perdida algures entre os meus mundos, vivo em permanente estado de saudade

Quinta-feira, Fevereiro 14, 2008

Mea Culpa

Às vezes sou intempestiva

impaciente

teimosa

irritante

ansiosa

implicativa

insistente

mandona.

Às vezes eu sou eu.

Terça-feira, Fevereiro 12, 2008

Reinventar

Sentiu a pedra balançar no bolso e a mão deslizou pelo tecido para a encostar ao corpo. A mão na pedra. A pedra na mão. Não pensou em todas as outras pedras que já tinham caído do bolso no caminho. Em todas as que desapareceram da mão. Em todas as que esqueceu em bolsos maiores. A pele gasta por outras erosões tacteava agora esta pedra tão espantosamente igual às outras, tão inexplicavelmente diferente. Na memória da mesma mão ficaram marcadas reentrâncias, saliências, texturas dessa pedra: impressões digitais. Então envolveu-a e num movimento tão preciso como irreflectido, atirou-a para o chão, onde deixou de a distinguir de outras tantas pedras.

Pelo menos esta sei como perdi.

Quinta-feira, Janeiro 10, 2008

Tons

"Temos por hábito falar mais alto do que a realidade. Mas quando a realidade, só por si, fala tão alto, a nossa obrigação é baixar o tom. Se o acontecimento grita, devemos sussurrar."

Óscar Mascarenhas


Porque para além dos jornalistas, isto serve como ensinamento a qualquer ser humano.